quinta-feira, maio 03, 2007

Ficar sempre contigo


“Há qualquer coisa no momento em que duas pessoas desenlaçam um abraço forte. O sentimento de que continuamos ligados, protegidos. De que o abraço se prolonga para lá do contacto dos corpos, da pressão quente no nosso peito, dos braços que se estreitam. Poder ir embora e sentir que levamos o outro connosco, e que ele nos protege, nos enlaça ainda.”

Era o que ela pensava, enquanto se abraçavam, sentados no auditório semi-escurecido que era o carro, com mil pontos de luz à sua frente, no quadro encantado e nocturno das cidades adormecidas.

Estavam em silêncio, mas era um silêncio com forma, palpável e confortável, a voz das coisas que gostamos e nos gostam. O que não diziam entendia-se nos gestos e no olhar, na calma de um roçar de cabelos e de um beijo na testa.

O abraço desfez-se, mas ficou. Ela sentiu que tinha razão, que continuava protegida. Estava certa.

E desfez-se o silêncio. Murmuraram-se “quero-te” ao mesmo tempo e ficaram a olhar a lua, quase cheia por entre a folhagem nocturna, parceira fiel e silenciosa, lá no alto. Sorriam e ela respondia de volta, encantada com a perfeição das coisas simples.

E falaram. Das trivialidades, dos medos, dos desejos. Falaram da alma, e a lua testemunhou. Falaram de tudo e de nada, e acompanharam-se, com a força de uma mão quente aberta sobre o peito. Estão juntos, aconteça o que acontecer. Porque se querem.

E isso basta.

sexta-feira, abril 27, 2007

...mais 5 blogs que fazem pensar


Inesperadamente, a menina Catarina, da Ville de Lumière, lembrou-se que o meu blog a fazia pensar eh eh eh e a nomeação dela implica que eu escolha mais cinco. Aí vão:


Roads que já via uma actualização, porque este puto é genial, mas que tem estado parado. Pela insanidade contagiante, e pela lucidez incrivel. (moço, actualiza-me isso...)

Impressão digital o blog da Ana João, que pinta em tons quentes e frios de maravilha pequenos instantes do quotidiano.


Bruno Nogueira a minha nomeação silenciosa, que o senhor Bruno Nogueira tem mais o que fazer, mas que fica, a render homenagem ao humor inteligente.


Ghost pela leveza da poesia, nas palavras e nos sentimentos belos. Diz que o miúdo tem talento...


Noiseformind Definitivamente, para pensar. O psi mais louco que já tive oportunidade de ouvir ;) e (não) conhecer loool


Ficam estes. Há outros cantinhos de interesse incrível para visitar (confiram na coluna à esquerda ;) ), mas passo a batata a estes. Meninos, divirtam-se...

sábado, abril 14, 2007

Sol

Vamos fugir para o sol, meu amor...
Deixar seguir os nossos pés descalços no cheiro quente do cimento, da terra, da relva... em passos pequenos, cadenciados a cada beijo nosso.
E ir despindo o que nos pesa, na igualdade feliz de quem vê com olhos de luz. Um caminho em peças de roupa esquecidas, o trilho pessoal do desejo!
A cama verde e sussurante que nos espera, os teus braços que me pousam, e sempre o toque dos teus lábios, a minha pele a arrepiar-se a cada beijo teu...
No calor novo do Verão a despontar, com os odores da terra como nosso próprio cheiro, sermos unos e primordiais.
E ver o Sol invejar-nos, e cravar em nós os raios mais fortes, enquanto nos amamos entre flores... Amares-me entre frésias, como entre pétalas de rosas...

Os nossos suspiros são canto de pássaros, zumbido de abelhas, no fervilhar do Mundo que quisemos parar, mas continua a girar sem querer saber de nós.

Esquecidos como no jardim do Paraíso, na inocência de quem se quer.

E depois adormecermos, morrer ali... Juntos os dois, e felizes entre flores...
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(...porque hoje me surpreendeu a luz do meu jardim, não sabia que os dias estavam tão bonitos, e a luz lembra o amor...)

sábado, março 31, 2007

Desculpem lá...


...mas este moço tem qualquer coisa :)

"Think Beck via Queen and Elton John and a touch of Rufus W. Would love to blab about Harry Nillson but I fear no one will know what I'm talking about... but if you do, you'll know what I mean."

domingo, março 25, 2007

Noite 1.1

Sentada no meio do café barulhento, vou ouvindo sem escutar as histórias dos meus amigos, que me rodeiam.
Olhos fixos na televisão, sigo com um interesse incomum as séries, a novela, a publicidade, o que quer que seja que passe e me distraia.
Cá por dentro, o barulho do que penso confunde-se com os cânticos e os brindes já desencontrados dos vários grupos bem bebidos que estão no café. Estão a festejar, uns. A esquecer, outros. A tentar conter-me, eu.
Cerro os dentes, vou mordendo os lábios, tento controlar o afluxo súbito de lágrimas nos olhos, por mais uma tolice qualquer que me passou pela cabeça. Consigo. Ninguém deu por nada. Nem percebo o que tenho, de tão estúpida que me sinto.
A conversa segue, animada. Apanho uma anedota a meio, sorrio. Tem efectivamente piada, mas eu não estou lá, não consigo acompanhar as gargalhadas dos outros. Vou seguindo um pouco atrás, só.
O café enche ainda mais, perto da hora de fechar. É ponto de encontro para mais uma noite, ali ao lado. Um rapaz senta-se ao meu lado, mete conversa. Já o conheço de outras noites, mas hoje não consigo trocar mais do que duas palavras com ele. A conversa vazia sobre como fica triste se eu não sair com o pessoal acaba por me irritar, e vou-lhe respondendo em monossílabos e acenos de cabeça. Acabo por pedir desculpa, e levanto-me para pagar. Olho atentamente as garrafas, expostas, a ver se os olhos me secam de novo.
Só o funcionário de sempre me arranca um sorriso largo. “Então que vai ser, princesa?”, pago a despesa triste desta noite e saio.
Mais gente cá fora, estão todos tão alegres que me dou ao direito de os invejar. Espero pelos amigos que também vêm embora, acordo um bocadinho com o frio cortante que está. Noite estranha, para Março. Lágrimas estranhas, para uma noite que se queria alegre.
Sou a pior das companhias, numa noite assim. Vou caminhando em silêncio, tento concentrar-me no céu escuro, nas escarpas desenhadas a luz do rio Corgo. A ponte hoje é excepcionalmente comprida, feita de silêncio. Estou quase em casa, mordo ao de leve os lábios e vou olhando a ponta brilhante dos meus sapatos.
Despeço-me quase em silêncio e subo.
Estou sozinha. Posso chorar. Não vale a pena...

terça-feira, março 06, 2007

Resumo

Tenho a mesa cheia de trabalho. Folhas espalhadas, esquemas, tabelas, imagens, pelo meio de letras minúsculas a darem-se ares de códigos indecifráveis.

No meu lugar cativo no café da rua, a agitação próxima ajuda à concentração. Ajo como se o espaço já fosse meu, peço o café do costume, e estudo.

Desfilam nomes, teorias, métodos... listas intermináveis que urge saber, pessoas e locais que nunca conheci, mas que parecem imprescindíveis ao meu futuro.

Estou cansada disto, do saber falso, feito de engolir e vomitar conhecimentos alheios, a História dos outros.

Encosto-me na cadeira, afundo-me um pouco (é já um hábito), e viajo...
O dia que passa lá fora está cheio de Sol, não parece Inverno, não parece Vila Real. E as pessoas notam-no, saem à rua como em agradecimento.
As manhãs de luz põem-nos sorrisos nos passos. Queria poder caminhar... Sorrio para outras manhãs, outros dias feitos de luz. Afinal, já passou tanto tempo.
O presente não deixa espaço para me encher desta luz. A realidade resume-se aos livros. Antecipo os dias que aí vêm, sem a pressão de hoje. Falta tanto, e na verdade já não falta quase nada.

Volto à Terra. O barulho no café cresce, agrada-me este tilintar constante de copos e chávenas, a conversa amena das senhoras da outra mesa, a correria dos funcionários de lado para lado, que me esquecem porque eu estou sempre aqui.
E os papéis ali. Cheios de notas, sublinhados de desespero, à minha espera. Sempre à minha espera.
Mergulho de novo nas folhas, luto com os nomes, é difícil apropriar-me de tantas pessoas e das suas almas.

Cheia de tudo... vazia de mim.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Ponto









Fecho a porta e deslizo para a noite. Sou todo silêncio negro, com excepção do som seco das minhas botas, que se afundam ao de leve na gravilha.
Durante a noite, a estação de caminho-de-ferro é espaço morto, o pouco movimento do dia substitui-se por um silêncio incómodo, de assuntos à margem da lei e encontros à margem da sociedade. Nos barracões ao lado, há apenas o restolhar de animais vadios. São depósito-cemitério de velhos maquinismos, oficinas-museu do passar dos dias.
O portão baixo ao lado do edifício principal chia ao de leve, à minha passagem. Assusta os gatos, concentrados nas suas lutas territoriais, que saem disparados à minha frente.
Cá fora, o largo rodeado de árvores tem ares de floresta proibida. São poucos os espaços deixados pela folhagem, e o luar que se derramava tão generosamente acima das copas, só encontra pequenas clareiras para se espalhar, e ilumina timidamente pequenos pontos no chão. Tem qualquer coisa de sombrio, o parque na semi-escuridão. Os bancos, os escorregas, os baloiços, aparentam um estado de adormecimento e de abandono, em sombras verdes, que não é real, como um efeito criado pela falta de luz, que defina cores, contornos, brilhos... E o parque deixa-se dormir em silêncio, um grande silêncio reflectido no azul profundo.
Caminho à luz fria da lua, procuro os becos junto ao rio. Putas, chulos, dealers, viciados, putos. Conforta-me estar entre semelhantes, inserir-me nesta sociedade marginal, onde não há questões. A imagem ensaguentada da mulher que deixei para trás cola-se a estas mulheres do beco, prostitutas como ela. As pontas de cigarro brilham como luzes de presença, chamam-me, lembram-me, vendem-se...
Há raiva nos meus passos, a mesma que me fez explodir há pouco, bater-lhe cegamente até ela se calar, para sempre. As poucas palavras que trocámos antes de desaparecermos nos velhos barracões fizeram-me odiá-la. Tudo o que dizia tinha um mel falso, de discurso estudado e repetido vezes sem conta, de gestos aprendidos e mecânicos.A vontade animalesca de sexo que me levara até ela transformara-se, perdeu-se. Ficou só o desejo cego de destruir, de calar.
Tinha saído de casa movido por um impulso tão súbito como este. A perfeição do lar, em todas as suas formas, enojou-me visceralmente. O chão limpo, os móveis arrumados milimetricamente, o beijo repetido da minha mulher perfeita, o jantar já pronto à espera na mesa, as crianças a dormir no andar de cima. E eu, acabado de chegar do banho diário de problemas alheios,de encomendas de última hora e das desgraças de meio mundo, era o único ponto sujo, imperfeito, fora das regras. Não era dali, tudo o que eu pagava naquela casa, na minha, não me pertencia... nem o jantar, nem o sofá, nem a mulher. Recuei após o beijo dela, quando me apercebi que podia enumerar tudo o que aconteceria nas próximas horas, até adormecer... nos próximos dias... nos próximos anos, até morrer.
Devolvi-me o casaco pousado há segundos no bengaleiro e saí, sem justificação. Quebrei a corrente de perfeição, pensando bem devo ter deixado a minha mulher perfeita demasiado confusa sequer para me tentar parar.
Os meus passos desorientados levaram-me para fora do bairro, para o centro da cidade, depois para o outro lado da ponte... e foi-se avolumando a vontade de quebrar mais regras. Era o marido que chegava sempre a horas? Saí porta fora sem explicações. Era o marido fidelíssimo? Pois destruiria isso também... como um rito de passagem para fora da vida perfeita. Um rito sexualizado e animalesco, que fosse como uma pedra a definir território. "Daqui para a frente, pertence-me."
Não escolhi ninguém em especial, limitei-me a dirigir-me à primeira mulher sozinha que vi, cigarro na mão, pose estudada e provocante. Ela conduziu-me pelo escuro, até lá atrás, aos barracões. Parecia ser o lugar de sempre, a sua suite privada, com o luxo de uma manta já desbotada de vermelho estendida no canto, pronta a acolher os prazeres pecaminosos da lúxuria. Arrepiou-me ver que também ela era um autómato, que todos os seus gestos e frases seriam também os habituais. Ela saberia dizer-me claramente como seria, quanto demoraria, o quanto eu gostaria de fazer sexo com ela. Ela era a minha mulher...prostituta, num sítio abandonado, estendida sobre vermelho... mas tão previsivel e rotineira como ela. O tipo de coisa que eu já não suportava.Então agarrei-a. Não para a possuir, mas para exercer força, para a fazer parar. Destruir tudo, destruir o seu programa de acção, os seus planos milimétricos. As minhas mãos apertavam-lhe o pescoço, podia sentir a carótida latejar, a tentar seguir o seu curso, a sua traqueia a colapsar debaixo dos meus dedos. A mulher debatia-se, tinha força, agradava-me vê-la a lutar, a ser criativa para sobreviver. Assentei o joelho no peito dela, a fragilidade dos seus ossos estava à mercê da minha vontade. E sentir como controlava a situação, pela primeira vez em tanto tempo, tornou-me poderoso e fez-me continuar. Não sei como morreu. A minha raiva levara-me a pontapeá-la, a levantá-la do chão para a atirar contra a parede, queria que ela reagisse, queria vê-la lutar. Mas ela fraquejou depressa. Previsivel, até na morte.
Agora caminho de novo as mesmas pedras, a tentar arrefecer a minha raiva. Junto-me de novo à marginalidade que procurei há pouco.
Defini-me completamente, tomei as rédeas e as responsabilidades da minha vida, ao deixar para trás aquela mulher morta. Não a escondi, nem me escondo. Apenas me misturo com os que são agora meus semelhantes, integro-me na minha nova condição. Sei que não tardará muito que encontrem aquele corpo, que ele os conduza a mim, que me levem e me julguem.
Ironia, que me julguem pela minha libertação, e que me prendam por ela... Libertei-me no corpo que deixei, e assumi as suas consequências futuras como passos numa nova vida.
Sou com certeza um tipo estranho. Devo ser, aliás, um dos poucos assassinos que se passeiam de sorriso no rosto, sabendo que vão pagar pelo seu crime.
E está uma noite tão bonita...



(Magritte, por incluir um céu luminoso numa pintura nocturna. )

sábado, dezembro 23, 2006

por aqui



Em jeito de saudades recentes do teu beijo, de frio na pele à falta do teu toque, de frio na alma sem a tua luz que me aquece, de braços vazios sem te ter por perto...
Os dias frios não me chegam para companhia. Estão demasiado luminosos, quase aquecem quando o sol brilha de forma mais intensa. Precisava de frio cortante, aquele que nem o calor deixa chegar ao chão, só luz, fria, aguda, só...
Tenho saudades de mim noutro lugar, acompanhada pelo meu frio, responsável por mim e pelo meu cachecol com as pontas caídas, insuficiente.
Quero vapor branco a acompanhar o som das minhas palavras, narizes vermelhos e faces acordadas pelo frio. A dureza da Natureza como tem de ser no Inverno, estéril e vazia. Horizontes polvilhados de branco, gelo no chão aos primeiros passos da manhã, o movimento como única reacção ao abraço gelado que nos rodeia o corpo.
Em jeito de confissão...


...em jeito de me querer fora daqui.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Um

Escrever isto partiu de uma brincadeira, uma ideia de circunstância... a ideia passou a papel, o papel passou as mãos de alguns amigos (numa bela aula de Nutrição loool), e depois de ouvir os comentários, que ainda hoje ecoam quando a Marta se lembra, achei que podia deixar isto aqui... São coisinhas soltas, depois de umas semanas de silêncio no blog.


-Posso enroscar-me ao teu lado? E podes deixar-me dar-te beijinhos no ombro, enquanto me fazes festas no cabelo...
...
-Enquanto sentes a minha respiração no teu pescoço e as minhas mãos se perdem nos milímetros todos do teu corpo.
.
-... e depois as minhas mãos afagam as tuas costas, e as nossas pernas entrelaçam-se...

-E as nossas línguas deslizam uma na outra... Encosto-me a ti. Como nunca o tinha feito antes.

-A minha respiração é a tua respiração. Os nossos corpos movem-se na mesma lentidão em sintonia...

-Debruço-me sobre ti... Olho-te nos olhos por entre a pouca luz que entra pela janela... Encosto a minha face na tua.

-... e o meu corpo todo beijos teus é-te quente ao toque. A tua pele é um mar de pequenas gotas salgadas.

-E o calor que dele provo deixa-me mais e mais sedento... de fazer amor contigo.

-Eu torno-me entrega, fonte, precipício... Quero que sejamos apenas prolongamentos um do outro, os dois um só! Afago, beijo, carícia, multiplicados por mil.

- À tua entrega me entrego... Sinto a tua alma respirar...ofegante. Acompanhada pela minha. No precipício caímos... Não se vê o fim. Caímos. Cada vez mais fundo...

-E somos murmúrios, gemidos, vozes que se alteiam à escala do prazer... Explosão infinita a ecoar pelos séculos fora! Somos um só...

...

-...adormeci nos teus braços...

-... e eu acordei nos teus...

sexta-feira, novembro 17, 2006

...

Olho através de fragmentos de vidro coloridos. Estou deitado no chão, como em cima do Mundo, e lá acima uma clarabóia mostra-me um céu multicolor.
É um céu distorcido, este. Uma mesma nuvem mostra-se-me em diferentes cores, azul, amarelo, roxo, verde... como uma manta de retalhos estendida por sobre a estratosfera. Onde está o meu feijoeiro mágico, como posso subir e enfrentar monstros de contos de fadas? Não há, e a única porta que se abre para fora deste quarto dá acesso à realidade.
Apetece-me ficar por aqui, poder ver sempre o Mundo por vidros multicolores, distorcido mas apetecível. Ou partir a clarabóia em mil pedaços, e poder levar comigo todas aquelas cores.
Devaneios, viagem, só... A realidade espera-me teimosamente, de pés fincados no chão, lá fora. E eu preciso de me levantar. Só que a gravidade tem a força de cem gigantes, prega-me ao chão e pisca-me o olho, enquanto serve a minha preguiça.
Cerro os dentes, apoio as palmas das mãos no chão, chamo forças que não tinha aos músculos que estiveram sempre ali, distraídos de mim. Elevo-me sobre as mãos, sento-me. Os meus olhos ficam mais perto da clarabóia, assim. E tentam-me.
Não resisto. Levanto-me e estendo a mão. Os encaixes da pequena janela redonda saem do lugar, pela simples vontade dos meus dedos... e todas aquelas cores se precipitam para o chão, os cem gigantes a ajudar-me. Espalham-se pelo quarto, em sons de estilhaço.
Baixo-me, recolho todas as cores, e saio porta fora com o bolso cheio de sonhos...

sexta-feira, novembro 03, 2006

Anjo

Porque surgiste do nada e começaste a caminhar a meu lado. Revelaste-te, revelei-me, conheci-me. Descobri que e bom conhecer pessoas como nos. E foste riso, conversa fiada, tontices a mesa do lanche.
Porque ajoelhaste perto de mim e me cobriste com as tuas asas, quando eu so queria esconder-me do Mundo e sofrer para mim. E me deixaste estar so, continuando ao meu lado, como eu precisava.
Porque beijaste as minhas lagrimas e as fizeste parar, me abraçaste com a força do Mundo e me obrigaste a enfrentar os meus fantasmas.
Porque os afectos criam habituaçao e dependencia, nos fazem fortes em gestos tao pequenos, nos insuflam coragem em sopros indistintos.
Porque nao me abandonas, mesmo se te decepciono... Nao me julgas, mesmo sendo a voz de uma consciencia que insisto em esquecer... Nao me evitas, mesmo conhecendo o pior que ha em mim.
Porque es tu...
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...mas ha quem insista em negar-te a entrada no Ceu a que pertences. Querem cortar-te as asas, rasgar-te as vestes, abandonar-te aos lobos.
E eu aqui, impotente perante semi-deuses todos-poderosos, incapaz de retribuir os gestos, a tranquilidade.
So posso sentar-me a teu lado, e esperar que os meus braços que te rodeiam sejam o bastante para te proteger da tempestade.
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(estava guardado num dos meus cadernos ha coisa de uma semana, no dia em que fiz um pedido importante a uma pessoa importante. Obrigada por teres estado la, comigo. E escrevo-o agora por ter ainda mais a certeza de tudo isto. Sem o teu fervor da Queima, mas completamente sentido, so posso dizer "Miudo, adoro-te!")

terça-feira, outubro 10, 2006

De que são feitos os sonhos?

Acordo.
Abro os olhos a custo, colados pela força de lágrimas que não me lembro de ter chorado. A claridade exterior cega-me, tenta-me a cerrar olhos de novo. Resisto.
A claridade brota das paredes, do tecto, do chão onde me encolho, e atinge-me, penetra as minhas roupas, os meus poros. Tudo branco. Brancas as paredes, branco eu, ligados por fios luminosos, imaginários, que me prendem onde estou.
Não me lembro como cheguei aqui. Não consigo perceber sequer por onde entrei, onde está a ponta do véu branco que cobre tudo. A náusea apodera-se de mim, mais do que o medo. Confusão, só.
Não há nada que me situe neste espaço indefinido, e até as minhas memórias parecem começar a esfiapar-se em branco.
Agarro-me ao que resta delas. Preciso reconhecer pormenores coloridos, com sombras e movimentos. Quero cores definidas e separadas, o que quer que seja que me afaste desta mistura de tudo que é o branco.
E começo a ver. Vejo. Faço crescer à minha volta um jardim colorido, todos os tons de verde para uma relva que quase consigo pisar, as gradações mais raras de todos os amarelos, vermelhos, azuis para formar flores e frutos de odores fortes... e um céu de azul profundo acima de mim, acima de tudo, que me deixasse fugir.
Há agora um conforto colorido na minha cabeça. Instalo-me mentalmente neste jardim, aconchego ao peito as flores que mais amo, começo a vê-lo crescer para lá da minha imaginação.
E deixo-me ir. Já não há náusea, há encantamento. Com um piscar de olhos posso tornar o que me rodeia noutra coisa qualquer... e a sensação de poder fascina-me.
Acabo por perceber que não estou acordado. Que me vi fechado na caixa branca dos meus sonhos. E que sonhei em paz, como não fazia há muito.
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Afinal, será assim que construímos os nossos sonhos?

domingo, outubro 08, 2006

Constipação

Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.
Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.
Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.
Fernando Pessoa
E este é um retrato fiel dos últimos dias... de uma constipação mais curada a teimosia e a vontade de sair da cama do que a medicamentos... A primeira deste Inverno, e espero que a última, para bem de quem convive comigo... as dificuldades em aturar uma Nandita engripada são muito maiores do que as de aturar a Nandita versão standard...
Um grande atchim para vocês ;)

sexta-feira, setembro 29, 2006

Choro


Devolvo-te ao teu corpo num beijo. Desperto a tua alma por aquecer os teus lábios… Sopro-te no pescoço, acaricio a tua pele…

Mas perco-me na loucura do que sei impossível.
Levanto-te em braços na força do meu desespero.
Chamo-te, beijo-te, suplico.
Mas a gravidade cola-te ao chão, não te deixa abrir os olhos, esboçar sequer um sorriso. Porque não te mexes? Que é da tua voz, do teu passo? Para onde fugiste?
Colo-me ao que resta de ti, protejo-o como algo sagrado, imaterial, mas já não és mais que pó, vapor, sangue… frio, mudo, quieto.
Ergo olhos ao céu, a um Deus que não me existe. Peço-te a ele, a tua alma, que ma devolva. Com um beijo, um sopro, um toque… mais poderosos do que os meus. Sou só um Homem, não posso nada.

Mas não há resposta, e abraço-te enquanto te choro.

quarta-feira, setembro 20, 2006

Sinto que lá fora, na noite, já faz frio. E arrepio-me pelo prazer esperado do contacto com o relento.
Saio à varanda. A cidade dorme, como se espera, a esta hora. Só um ou outro carro desce a avenida, e corta o silêncio murmurante. Há pontos luminosos que desenham os contornos da cidade, como um quadro de Seurat, vivo, nocturno, a exibir-se a meus olhos.
O ar frio sabe-me bem na pele, arrefece-me o sangue. Depois da lassidão do tempo quente, sabe bem este despertar violento para a vida, a minha, em banho-maria há meses. Há sensações e pensamentos difusos a tomar forma, a ganhar contornos mais definidos.
Sorrio. A minha vida tem os contornos desta cidade… mas os meus pontinhos brilham mais timidamente.
Ajeito a camisola contra o pescoço, tudo o que nos acorda também consegue ser desconfortável. Mas estou bem aqui, sinto-me lúcida… e viva!
Não sei o que resulta de momentos assim, de introspecção a frio. Nunca há nada definitivo nas minhas decisões, há apenas a sensação de que afinal sei quem sou, e sei que sou capaz de enfrentar o Mundo… erguendo alto as minhas convicções e até as minhas incertezas, como parte integrante e orgulhosa de mim!
Sim, eu sei quem sou…

quarta-feira, setembro 06, 2006

Viagens

Entro no autocarro e escolho um lugar. Invariavelmente atrás. Invariavelmente à janela.
Foi mais um dia cheio, de aulas, de risos, de minutos leves. Mas estou cansada. Preciso de me ouvir a mim, para lá das gargalhadas e das questões anatómicas e histológicas.
Repito para isso gestos diários. Procuro o leitor, ajeito os auscultadores, recosto-me mais no meu lugar… e observo.

O leitor vai debitando sons, os meus, mais alternativos, mais pop, consoante os dias, mas sempre algo que me acalme.
Hoje é ao som de "Come into my heart" que passo pelo complexo desportivo, e posso ver, em todo o seu esplendor, o recorte das duas serras, ao pôr do sol. Marão e Alvão confundem-se na sua junção, vistas daqui. E os raios de um laranja muito vermelho que os encimam dão ares diferentes às nuvens de fim de tarde.
Desço a estrada para Vilanova já dentro de outras melodias. O desespero rasgado de "Bliss" agita de forma diferente as folhas das árvores que ladeiam a estrada, e só deixam adivinhar o pasto junto ao rio. É fim de tarde, até a paz me soa diferente.
Hoje a volta é grande. Passo em Mateus. "Bonita" faz-me cócegas nos ouvidos, como uma língua que beija. E à minha frente estendem-se vinhas baixas, uma semi-encosta de quinta, que me faz sonhar com um futuro próximo, de trabalho junto do que gosto.
Viramos para Abambres. Sorrio mentalmente à lembrança do ditado em tempos de praxe, quando nos punham a cantar que o ar de Abambres fazia as ditas mais grandes. Já são menos os meus companheiros de viagem, a noite já vem próxima. Há Damien Rice a falar pertinho de mim… "stones tought me to fly, life tought me to die"… e apetece-me sorrir para a miudinha que vai agora sair, de mãos dadas com o pai.
O autocarro já vai entrando de novo na cidade. Observo o militar à porta do Regimento, em pose rígida, severa, perdendo as horas sabe Deus em que função protocolar. Também tenho dias assim…
Entramos ao bairro de S. Vicente de Paula, já caiu a noite e só vejo as luzes penduradas prédios acima, famílias que se juntam à hora sagrada do jantar. Para os lados de Lordelo, todas as casas são pontos brilhantes, e estendem-se até ao sopé do Alvão.
Campo de futebol, cadeia, Igreja… os vinte minutos de uma viagem passaram depressa, estou à porta de casa. Já corre um arzinho mais frio, e volto a apertar o casaco. Passo o túnel a dançar ao ritmo de "Our hearts will beat as one", para espanto dos vizinhos por quem passo.

E estou em casa… Pronta para as novidades do resto da minha família em ponto pequeno.


(Homenagem ao 1, o autocarro fiel das minhas viagens de fim de tarde no último ano)

domingo, agosto 27, 2006

Sacudir a toalha...

Sacudo a toalha
E espalho ao vento pequenos pontos brilhantes.
Com a areia vão todos os segundos, os momentos daquela tarde de praia.
A areia era quente, a água gelada e límpida, o teu corpo um cais seguro...
Olhas-me com olhos de miúdo, olhos em ponto de interrogação. E ris... e fazes-me rir!
O tempo passa a correr quando não sentimos o sol, nem o vento... só aquele quadrado de areia em que estendemos toalhas e deixamos os minutos contar.
Mas agora sacudo a toalha... se calhar o Verão acabou um pouquinho, ao acabar esta tarde.
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Olho os pontos que se espalham no ar, voltam à areia de onde os agarrei... levo alguns na pele, junto com o sal da água e do teu beijo.
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E trago toda a praia comigo...

sábado, agosto 12, 2006

Mulheres

Vão pelo caminho romano, ladeado de silvas e cardos roxos. Lenços, chapéus de abas largas, a saia e o avental muito pretos, tão pretos como a saudade...
Levam sachola, balde, pão e vinho para quando a fome apertar e as gargantas secarem.
Caiu a noite há pouco.
Cantam


Se fores à erva, vai ao Valadinho...
No rosto, estão marcadas muitas mais modinhas, a cantiga dos dias de trabalho de sol a sol, o entoar dos cânticos de Igreja, misturados com a realidade de trabalhar a terra...
Tomai e recebei, as horas do meu dia
Alegrias e dores, penas e trabalhos...
São as mulheres que passam para o campo.
São as minhas avós, semente e terra da vida dos meus pais, eco intemporal que me chega agora, ao anoitecer, nessa hora antiga de saídas para a rega, para uma noite inteira de trabalho ao luar.
São a fibra de que os meus pais me fizeram, a parte de mim que chora quando tem de partir, sair das leiras verdes, abandonar a vinha e os campos de milho de uma infância que não podia ter sido mais feliz.
Já não nos acompanham nos trabalhos do campo, já partiram a dar graças ao Senhor que sempre acreditaram em vida. Mas olham por nós, continuam a velar pelos que cá ficaram.
Não sei porquê, mas sei que sim.

segunda-feira, agosto 07, 2006

Cabeça cheia \ Cabeça vazia

Há qualquer coisa no tempo de férias que me desassossega. Neste tempo em que é suposto não pensar em nada sério, como o caso de empregos, aulas, exames, livros, em que deviamos andar de cabeça leve...
... há qualquer coisa de difuso que me enche a cabeça. Um zumbido constante de uma preocupação que eu sinto que DEVIA ter, mas não tenho, de horas certas que eu DEVIA seguir, mas que ignoro, de coisas inadiáveis que DEVIA cumprir, mas que deixo arrastar...
Não é certa ainda esta teoria, mas começo a achar que o nosso cérebro, que fervilha durante todo um ano de compromissos e prazos, chega ao fim de Julho, quando devia desligar, e não consegue. Como uma máquina que sobreaqueceu e na qual os botões deixaram de funcionar! Como se a lei da inércia se aplicasse também aos processos mentais...
Talvez este meu princípio de teoria seja um sinal de como o calor que entra pela janela me anda a afectar. Mas também não quero saber... e o cérebro continua ocupado com tanta coisa, que porei mais esta em lista de espera!

Desliga, cabeça... e deixa-me descansar só um pouco!