sábado, janeiro 15, 2005

Identidade

Apetece-me escrever, justificar-me! Expor o meu ponto de vista, mesmo sabendo que poucos serão os que me vão entender.


E no fundo é tão simples... como contar uma história que nada tem de sensacional, que não envolve amores, traições, poder? É apenas a história de uma vida, a minha história, que termina aqui.

Como disse, é simples. Para começar, é preciso fazer o que eu fiz: pegar em toda a nossa vida, como a conhecemos, e imaginar o que nos aconteceria se, a partir de um dado momento, a passássemos a viver como se fossemos o taxista atrás de nós, ou a reformada que vive rodeada de gatos no prédio ao lado. Aí, estarão lado a lado comigo.
Foi isso que fiz, no dia em que começa a minha história: um dia excessivamente bem disposto, o tipo de dia em que nos apetece abraçar o Sol, na esperança de nos transformarmos numa pequena fada. Bom, pelo menos era assim que me sentia...

Na cidade onde vivo os sorrisos são raros. Na verdade, o ódio e a desconfiança dão-se melhor no asfalto e no betão do que a felicidade e a esperança. São questões “agrícolas” que me ultrapassam! Mas a primeira constatação é real: os últimos dez sorrisos que vi estavam reflectidos no meu próprio espelho. Não que eu seja especialmente feliz, não, pelo contrário... Mas aqueles que me rodeiam nasceram sem a capacidade de contrair o rosto em sinal positivo (conseguem fazer algo estranho e semelhante, mas que exprime raiva, apenas...).

Nesse dia, a boa disposição dos elementos naturais contagiou-me... e senti-me tentada a roubar um sorriso à primeira pessoa com quem me cruzasse. Aqui começa a real história; tudo o que deveriam conhecer da minha vida anterior a este ponto, já vo-lo contei.
Cruzei-me, miraculosamente, com a tal senhora do prédio ao lado. Sim, a tal dos gatos... quem sabe se ela não estaria à espera de mim para a fazer sorrir?
Esbocei um sorriso e deixei-a passar à minha frente, com um sinal de simpatia.
E não é que ela sorriu? Pensei para comigo que tinha o dia ganho, até já me imaginava uma espécie de escuteiro-mirim, a fazer uma boa acção diária… ou a pequena fada que ambicionara antes ser, com poderes para tornar os outros felizes.
Depois da minha pequena glória, procurei novo alvo, com a certeza de que seria fácil ver mais alguém sorrir.
Por mim passavam dezenas de pessoas. Todas com ar apressado, a olhar os paralelos do passeio (pergunto a mim própria qual a piada daqueles cubinhos, para toda a gente os olhar assim, como se tivessem a chave da lotaria lá dentro…). É-me dificil encontrar a pessoa certa, a que pareça precisar de modo especial de um sorriso.



Páro no meio do passeio, e fico ali. Nos meus lábios, noto agora um sorriso… já não é de felicidade, nem tanto de surpresa… Sorrio com ar triunfante, porque acabei de descobrir… e agora este sorriso transforma-se num esgar irónico, porque descobri como sou ridicula.
Que é que eu estou a tentar fazer? Que quero dar eu às outras pessoas? O que não tenho? Disse antes que tudo o que deveriam conhecer da minha vida, já estava escrito. Explico porquê: porque na minha vida não há mais nada. Nada, senão a vontade de fugir, de agarrar nas vidas dos outros e vivê-la por eles. Tentei, com a senhora dos gatos… Eu sorri, ela sorriu… mas isso não mudou a minha vida, nem tão pouco a dela. Confesso que só me teria sentido realizada se pudesse ter roubado a alma dela, se pudesse ser eu, a partir dali, a viver rodeada de gatos, a possuir o seu corpo, a sua alma, o seu passado!
Morro de vergonha… e de culpa! Não posso ser uma ladra de vidas, não posso viver pelos outros, na angústia de um pecado desconhecido, de um crime nunca antes previsto… Como construir uma identidade? Que hipóteses me restam?
Só uma, percebo então. O meu sorriso transforma-se, os meus músculos relaxam. Provavelmente até pareço um daqueles mártires, que caminham de cabeça erguida e sorriso espelhado nas faces… que olham de frente a morte.
Sim, porque só isso me resta, só isso me tornará diferente. Morrer para ter uma vida própria, é no mínimo estranho, mas é a minha única solução…

Adiante, vejo o meu eu!



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Perdoem os momentos de loucura temporária da Nandita... graças a Deus são apenas temporários... fosse assim com os nossos políticos e nem estávamos mal...


:)

2 comentários:

Zee disse...

ó lindaaaaaa adorei o teu post, mesmo, mesmo!

Sim, sim, também eu às vezes gostava de ter uma identidade... ser reconhecida pelos vincos da minha personalidade... ter, como tu disseste, uma vida própria, sem ter "bocadinhos" de outras pessoas em nós. Eu também já tinha pensado nisto, e observei. Cheguei rapidamente à conclusão, talvez errada, talvez certa, de que ninguém é totalmente "original"... todos pegamos em bocadinhos maiores ou menores daquilo que achamos ser bom de outras pessoas, misturamos tudo, juntamos música, cinema, televisão, fotografia, enfim arte, e essa mistura passa a ser a nossa personalidade. E não é isso sermos nós próprios? Juntar bocadinhos de coisas que gostamos é escolher é criar uma identidade (pois, porque se gostamos, condiz connosco, é parte da nossa personalidade). Além disso, secalhar o que entendia por identidade (antes de chegar a esta brilhante conclusão) era ter uma personalidade muito vincada, ouvir só um tipo de música, vestir só um certo tipo de roupa, andar de certa forma, agir de acordo com isso, falar e escrever de acordo com tudo, enfim, de certa forma, ser uma mistura homogéna. Mas o que descobri é que a nossa personalidade não precisa de ser uma mistura homogénea! Ao criarmos uma mistura (e falo agora de maneira geral, pois não dizemos eu gosto disto disto e daquilo, é mais um tipo de coisa que se vai adquirindo ao longo da vida e experiência), estamos a criá-la de acordo com o que gostamos... e se gostamos passa a ser parte de nós, da nossa identidade!

Além disso, como já disse algures, a nossa identidade não deve sequer ser inalterável, senão as pessoas que ouvem música pimba estariam condenadas. OK, mau exemplo, elas estão condenadas.

Mas o que eu quero dizer com este grande testamento é que ter uma grande diversidade de coisas, bocadinhos, partes de outras pessoas dos quais gostamos, é ter uma identidade, é isso sermos nós. Cuidado mas é com os tais roubos de alma, ser uma cópia de outras pessoas não é normal nem saudável. Todos temos uma identidade, porque todas estas misturas serão de alguma forma originais. Como um código de ADN cujas bases são as mesmas e a diversidade infinitamente grande!


Mas bem secalhar não era nada disto o que tu querias dizer, e se esse é o caso ficas a saber a minha opinião, ainda que deslocada do teu texto, que por falar nisso está muito bom ;)

***** que tenhas mais momentos de loucura temporária como o que tiveste quando escreveste este texto :)

Nandita disse...

No fundo, no fundo, esta personagem descobre o mesmo que tu, mas tem uma saída mais drástica, considera a morte antecipada como uma forma de garantir uma identidade única...

E muito obrigada pelo big comment... não fazes ideia como fica bem debaixo do meu testamento :)


Bem, vou construir mais um bocado da minha personalidade e já volto... hoje a ouvir Leonard Cohen... :)