sexta-feira, maio 13, 2005

Coisas minhas

Pois, aqui a Nandita quando tinha mais tempo, tinha também mais tempo para escrever... por isso hoje, numa semana claramente pouco inspirada (a única coisa que escrevi foram páginas e páginas de exercícios de Matemática e Química, por isso...), fui aos meus canhenhos desencantar... isto!

O único texto meu que publiquei num jornal regional (A Aurora do Lima, de Viana do Castelo)... ando com saudades do tempo em que eu tinha tempo...
Cá vai:


TARDE DE MAIS


Não consigo! Não consigo sentir sequer um pouquinho de raiva por ti, uma minúscula gota que seja... Nem ódio sequer, ou desejo de vingança...
Nada! Aí está o que sinto por ti... Uma suave indiferença, só. Como pode ser? Como é que de uma vida inteira não resta nada, porque é que não fica um laço, uma ligação, por muito ténue que seja?
Para nós os anos passaram depressa de mais... Foram apenas contados, calendarizados: não os vivemos, no fim de contas.
Prendeste-te a um emprego inútil, diria até que casaste com os papéis, não comigo! Era no meio de papéis que passavas a noite, os fins-de-semana deixavam-te extenuado de tanto trabalho e as férias, essas, não faziam parte do vocabulário da nossa família... Dedicaste mais tempo a esses clientes do que a mim, e a paga disso é apenas solidão, sabes bem. Eles não te farão companhia, nem tão pouco chorarão a tua morte! E eu, posta de parte desde o início, farei como eles...
Os anos foram passando, e, enquanto que tu vivias quase exclusivamente para o trabalho, eu acabei por me dedicar aos nossos filhos... Sim, aquelas crianças que viviam lá em casa, os jovens a quem pagavas a mesada, são nossos filhos! São dois jovens que cresceram com a consciência de que o pai não os conhecia, mesmo estando sempre por perto... satisfazendo os seus desejos materiais. Custa-te perceber que o que eles queriam era apenas amor?
E a mim? Conheces-me? Sabes que fui tua mulher, que sou a mãe dos teus filhos? Escusas de responder... Sei bem que não...
Eu vivi sozinha tanto tempo que, nestes quatro meses, acabei por não notar diferenças palpáveis... só uma: deixei de ser tua empregada, já não lavo a tua roupa, nem preparo jantares para os teus amigos, que nunca conheci, já não preciso de ouvir as tuas desculpas, cada vez mais constantes, de cada vez que nem dormias em casa...
Posso pensar em mim, agora! E pensar por mim, também.... Vou reconstruir a minha vida, junto com os meus filhos, e esquecer que alguma vez te conheci!
Sei bem que não posso fingir que tenho vinte anos de novo... Roubaste-me esses anos, que podiam ter sido maravilhosos, e transformaste-os na época mais monótona da minha vida! Mas sei também que basta eu querer para que tudo funcione na perfeição. Terei um emprego, a fazer algo de que gosto e que não me sugue a vida, um bocadinho a cada dia... E vou amar a vida, como nunca amei!
Restam-me as pessoas... as que sempre estiveram do meu lado. Não tu, nem os teus, que apenas deixaram páginas em branco, com breves anotações, à margem, dos que me querem bem. Dos que me avisaram, vezes sem conta...
Mas ainda não é tarde de mais! O Sol nasce agora de novo para mim, e tu, qual vampiro que me deixou quase sem forças, somes-te de novo para a escuridão... para a sombra vazia que é a tua vida.
Acho que menti. Não é nada o que sinto por ti, há aqui qualquer coisa dentro, ainda. Foi o que restou: a pena! Tenho pena de te ver desperdiçar a tua vida! E possivelmente nem tens consciência do que estás a fazer a ti mesmo...
Abre os olhos, por favor, e olha à tua volta! Nem tudo está catalogado e apreçado... nem tudo tem um prazo tão curto como o teu serviço. Repara no que tens, e no que podias ter... podias ter o amor e o respeito dos teus filhos, podias-me ter a mim. Sabes porque não nos tens? Porque não nos podes comprar. Tudo o que realmente interessa não se compra, conquista-se! E tu puseste as tuas armas no chão há muito, muito tempo!
Tenta, a partir de agora, viver a sério! Talvez não seja tarde demais... ainda deve haver um resto de vida no teu coração de pedra e aço... podes ainda conseguir reconstruir-te, reconstruir uma vida, ao lado de alguém que ame esse teu novo “eu”.
Não penses que te esqueci. Continuarás no meu coração, no recanto escondido onde se guarda um lado do passado: o lado daquilo que podia ter sido bom, mas de que saímos magoados demais para tentar de novo.
Tenho pena de ti, tenho mesmo. E medo de que não te encontres, e a tua vida se desmorone... que vás até um ponto de onde não haja volta. Estás sozinho, espero que o saibas, e, como dizia o filósofo, sem desculpas. Não deixes a vida que te resta esvair-se nas tuas mãos. Quando estiveres de mãos vazias, não há retorno possível, apenas te resta o arrependimento e o remorso... E eles serão a tua morte!
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Bem, pondo de parte os dramatismos e tal, só falta um mês para o fim das aulas, vêm aí os exames... depois dois meses de férias "em pulgas" para saber do futuro... ano fenomenal, este!
Beijos, beijos,
Nandita

4 comentários:

Nelinha disse...

muito bom! mesmo! parabens nandita ;)
tb gostei mt dessa "nova casinha"!!
bjs linda ;)**

Hrrada disse...

Nice one! :) Intenso e real ;)

Estás sempre à vontade para visitar o meu cantinho e espero k o faças sempre k te apetecer, serás sempre bem vinda vizinha :) Eu vou aparecendo pelo teu ;)

Take care!
mua*

Filipe disse...

Só gostava de dizer uma coisa:

Esta rapariga tem uma cara linda...

(e espero que nao tenha namorado, senao tou frito)

hehehe

Bjinhos

Filipe

Anónimo disse...

Ufa, finalmente conseguí, estva a ver que não era nunca.parabéns, o teu texto está muito bom (original e realista). Beijinhos, fica bem. bom estudo.
Ass: veloso
ps: realmente o teu blog está com um ar renovado ;)